1.7.09

Pina Bausch (27.07.1940 — 30.06.2009)


«se formos ao fundo dos nossos sentimentos, dos nossos medos, dos
nossos desejos, conseguimos encontrar uma plataforma onde todos nos entendemos» (pina bausch)



Extracto de «Mazurca de fogo». Coreografia estreada em 1998, no âmbito da Expo 98.

22.6.09

Inimigos

Economia real


Situemo-nos. Estamos no centro, precisamente naquela avenida com nome de dia e mês onde inevitavelmente se cruza o povo a caminho dos respectivos afazeres. É também onde mais frequentemente se encontra e demoram as pessoas. O centro.

É ali o café, promovido a tal pomposo estatuto há uma ou duas dezenas de anos. Que não saibam as autoridades, mas ali se jogam o loto, o dominó e a bisca. E sim, serve-se bagaço caseiro não certificado mas muito apreciado e bem gelado. Mães e pais, provavelmente todos primos uns dos outros Alguns com filhos, sobrinhos e netos – raridades por tais bandas, o que lhes permite tomar a excepção por regra e contrariar a proibição de presença de menores de 16.

Ali se vende o gás, se recebe o correio, se paga a água e a luz. Ali se fazem as maiores confidências a par das maiores indiscrições, sem que alguém se encontre motivos para denunciar contradição. Ali há telefone com contador de impulsos, para serviço público. Em frente, a uns elogiosos poucos passos do café, chega mesmo a haver, quando calha, um tracito de rede nos telemóveis.

Estamos a 15 km da vila mais próxima. Tem um terminal de multibanco e um super-mercado. O lugar em que nos encontramos, com os seus cerca de 30 habitantes permanentes (se esquecermos a avançada média de idade) e um punhado de estrangeiros (estrangeiros nacionais e estrangeiros mesmo estrangeiros, uma figura da televisão e tudo), pode não ser fácil de encontrar para quem lá nunca foi (não à falta de placas indicativas, claro, mas simplesmente porque é raro o mapa de que consta e provavelmente ainda mais raras são as pessoas que algum dia lhe ouviram o nome). Mas, em comparação com os lugares em volta, não é certamente menor em extensão e importância.

Até há uns poucos anos atrás, esta gente viveu sobretudo da floresta, o que melhor será dizer do eucalipto. A completar a renda, os que podiam sempre faziam umas léguas a pé para apascentar ou vender cabritos. E nesses tempos chegou mesmo a haver três estabelecimentos comerciais no lugar, quer dizer, três tascas, cada uma com a sua arrecadação de vitualhas, ou, como se chegou a alardear, mercearias.

Também o nosso café, aquele a que já nos referimos e ao qual queremos agora regressar, possui ainda uma mercearia.

Dizer “ainda” é, em boa verdade, quase mentir, pois, esta semana que passou, dele foi dada baixa nas Finanças, havendo a proprietária, a contar dessa data, um precisamente um mês para vender o que for possível antes de fechar portas.

O povo não se conforma, pois vai ficar a cerca de 15 km do supermercado mais próximo. Mas a proprietária já há muito se lamentava de ter que mandar fruta e hortaliças fora, porque ninguém lhas comprava. O povo queixa-se de que deixará de ter onde se dirigir numa aflição em que falte algum bem essencial em casa. Mas a dona responde que as contas são tantas que a reforma dela, adicionada à do marido, são ali enterradas sem qualquer retorno. O povo pede-lhe para reconsiderar. Mas ela não pode, porque é preciso pagar a electricidade, as licenças, as contribuições, o imposto à colecta e, ainda para mais a ASAE acaba de a visitar e impor uma pesada lista de exigências, a começar por um chão novo.

E ela dá a entender ao povo que ele se contradiz. Que fecha porque a procura não era suficiente para cobrir as despesas fixas, que sobrava oferta. Ela aponta ao dedo ao vizinho da frente, de quem afirma peremptoriamente que, em seis meses, se limitou a comprar-lhe dois ou três pacotes de esparguete. Rebate que ficasse mais barato ir às compras à vila, dadas as despesas em combustível. Explica-se, respondendo que, se o povo considerava tão importante a existência da mercearia, deveria ter contribuído. E termina a conversa de uma vez por todas: “já meti os papéis; o que não conseguir vender, levo para minha casa".


Eis, pois, um curioso episódio de economia real no seio de um lugar português. As leis do mercado regulam como previsto os acontecimentos económicos: se falta a procura, a oferta perde o seu ponto de apoio e fecha portas. Mas, neste caso, é difícil imaginar a médio prazo o aparecimento de um negócio substitutivo, dado o isolamento do lugar, a idade das pessoas, a falta de atractivos para investidores exteriores que animassem economicamente a região. Mais fácil é imaginar as casas do lugar a fecharem uma a uma, o campanário da capela a deixar de tocar sua gravação, as silvas a crescer onde havia trilhos e hortas, o pó a cobrir de vez essa senda esburacada a que o povo com orgulho chama avenida, o padre a queixar-se de ter perdido mais uma paróquia, a chegada de turistas românticos que vêm fotografar a desertificação, a derradeira expiração do último velho, a dissipação última do aroma a pessoas que se evolava ainda do café e, por fim, o regresso dos pirilampos e o reino do coaxar nocturno das rãs na ribeira.

31.5.09

Mentira Política – a partir do texto de Jonh Arbuthnot, para uma reflexão em período eleitoral

1773 – É publicado um opúsculo com o título “Arte da mentira política”. O opúsculo é atribuído a Jonathan Swift, embora tenha sido publicado anonimamente, e começa com uma promessa de publicação de uma enciclopédia sobre o tema e com uma aliciante proposta de subscrição da obra, a ser distribuída em 2 volumes.

A iniciar o breve texto de apresentação, o “Autor” começa por justificar a apresentação da mesma: ele é um especialista em “Pseudologia”, cujas investigações muniram de importantes e recentes avanços nesta Arte, que não podem ser ignorados.

A tese, não muito distante do que já se encontrava em Maquiavel, é a de que a mentira é mais necessária e eficaz para bem governar um povo do que a verdade. O povo sente-se atraído, na sua busca de prazer, pelo fantástico, preferindo-o desde que não rompa os limites particulares do que para cada um e em cada caso é verosímil. Esta preferência liga-se ainda à constituição da alma, a qual tem duas superfícies: uma lisa, que espelha a realidade tal como ela é e é obra de Deus; outra, obra do demónio, é cilíndrica, pelo que a sua superfície é maior e assim mais facilmente deforma o real.

A lisura da alma, em termos de actividade política, não é a mais conveniente, visto que nela o código do bem/mal não coincide com o do verdadeiro/falso. Isso mesmo é evidente quando o bom (em qualquer uma das suas vertentes clássicas: útil, prazenteiro e honesto) se pode constatar no falso, ou melhor dizendo, na mentira.

Daqui resulta que o bom do bom governo é aquilo que o governante ou os partidos tomarem como conveniente, e é isso que se considera ser prestar serviço à pátria ou mentira salutar. A mentira não é apenas arte útil. É também arte nobre. A populaça, como encontramos em quase todo o pensamento moderno (talvez com excepção de Espinosa), não tem sequer direito à verdade, ou se o tem é apenas na proporção dos seus direitos a honrarias, cargos e ofícios.

O texto pressupõe a possibilidade de distinguir a mentira da verdade, o que talvez não seja hoje o caso. Adverte, todavia, contra a possibilidade e frequência com que os mentirosos se convencem das suas próprias mentiras. Mas isso é ainda parte do embuste da “obra”.

A haver uma verdade desta “obra” é que não há obra nenhuma. Ela é uma mentira que começa por apresentar o Autor como especialista em mentiras e propõe-se fazer um tratado sobre a mentira. Por isso, quando o Autor afirma conseguir detectar qualquer mentira, o seu autor, a sua origem no tempo e no espaço, não é possível saber se o acusado de mentiroso, caso se defendesse, estaria a dizer a verdade ou a mentir. Por outro lado, assim mentindo desde o início, o Autor revela a verdade: a mentira é inerente à política. Cada adversário (partidos ou governantes/governados) está condenado a lidar com a mentira em tudo o que afirma ou escuta: pois, ao calcular a sua acção em função do modo como ela será recebida e respondida pelo outro lado, cada parte deixa de poder saber exactamente situar a fronteira entre verdade e mentira. Diríamos hoje que a mentira é a verdade da comunicação política.

Não podemos, no entanto, aceitar tão apressadamente a ingenuidade que acabamos de atribuir ao Autor (e, no fundo, à sua época). O texto a que nos referimos remete-nos já para o que Baudrillard, duzentos anos depois, chamou “simulacro”. Nele se confundem para sempre a verdade e a mentira e, para reforçar essa percepção, O Autor que se faz apresentar na terceira pessoa (como se algum outro o apresentasse ao público) não se limita a permanecer no anonimato – concede em deixar circular o rumor de que a obra pertence a Jonathan Swift, ainda que saibamos que não foi escrita por ele, mas sim por John Arbuthnot, seu amigo e companheiro político.

Tendo sido escrito por um político activo, e ainda mais por um Artista em Pseudologia, vale a pena, em momento de campanha e reflexão (?) eleitoral, ficar com o seguinte excerto, para que cada um procure por si próprio discernir onde termina a verdade e começa a mentira, e para que cada um se confronte consigo mesmo, tentando perceber qual a porção de direito à verdade que para si seria exigível, e, face à impossibilidade de ordenamento social idêntica à do século XVIII, quais os critérios em que se fundamentaria em tal exigência.

“As mentiras de promessas que fazem os grão-senhores, os ricos e poderosos, os que estão no poder, conhecem-se do seguinte jeito: põem-vos a mão no ombro, dão-vos grandes abraços, sorriem, curvam-se até ao saudar-vos; tudo isto são outros tantos sinais que deverão indicar-vos estarem eles a iludir-vos. (…) O meio mais apropriado e eficaz para destruir uma mentira consiste em opor-lhe uma outra mentira.”

7.5.09

A ideia de improvisação

a Jorge Marta

Uma espécie de hesitação, e o concerto começa: http://www.youtube.com/watch?v=jzqMJWlKMsY

O concerto é o Concerto de Colónia de Keith Jarrett e a hesitação, de uma qualidade especial: trata-se de uma hesitação decidida. «Assim tem que ser» parecem soletrar as notas iniciais. Tudo à volta era entropia, e eis que a vida se insinua – e resiste: após um quase silêncio (na verdade formado por uma nota que pinga regular) o motivo é reassumido, as notas repetem-se. A tentação original – porque a vida implica esforço – seria soltar a mão, tornar ao nada; mas, já que cá estamos, «recomeçamos. Não nos rendemos».

Estas últimas palavras são de Lars Gustafsson e pertencem ao romance A morte de um apicultor. Nele, um antigo professor aprende a dor que um cancro lhe inflige. (Salvo as devidas distâncias, mas em carne e não em ficção, parece que Keith Jarrett estava doente aquando do concerto e que também o piano não estaria nas melhores condições – ainda assim, o exigente pianista tocou.)

«Recomeçamos. Não nos rendemos». Apesar da morte, pressupõe-se. E a vida é isso, essa não-rendição absurda que ganha sentido na resistência. Como? A vida procura um lugar, um lugar indeciso, impreciso, improvisado, expande-se apalpando o vazio. Ou digitando o futuro nas teclas de um piano desafinado. Um lugar de passagem, que a cada instante recompõe. Um lugar instável, é certo, mas de alegria. Alegria instável chama Espinosa à esperança.

Toda a música não improvisada é estilização da alegria; mas não da sua instabilidade. Nasce, essa música, de um improviso, claro – mesmo que mental –, contudo, fixa-se apenas na sua estrutura feliz. E não importa que seja em tom menor: é fruto de um resumo, gesto que limpou os vestígios do erro e da tentativa, sua errância, sua perdição – Ulisses reduzido ao regresso a Ítaca, Abraão prisioneiro da promessa cumprida por Deus (ter uma nova terra e descendência abundante).

Já a música improvisada, não obstante os tiques e os truques do intérprete, é sem estilo. Não é que não tenha personalidade, um modo de ser – é desse modo um eco, aliás –, porém, é feita de uma doce indefinição, de um doce adiar da forma definitiva, do acabado, do fim. A forma definitiva é, como se sabe, um dos nomes da morte. Um dos nomes com que se mente a morte. É de resto o que a recusa de um FINE significava para Fellini e que o atesta como improvisador.

A consciência desta imponderabilidade da metamorfose constante da vida é, não o que anima a improvisação, mas a própria improvisação. A improvisação é a consciência de o que desastre está iminente a todo o instante – um rosto em face do nada – e, simultaneamente, a resposta destemida, ciente de que não vai acertar… não querendo acertar. Neste caso, acertar seria «a morte do artista». Isto é particularmente reconhecível no Concerto de Jarrett. Eventualmente, mesmo à primeira audição, previremos a nota ou o acorde que acaba por acontecer – mas não no lugar, no sítio exacto, em que o esperávamos.

Enquanto se adia a emergência resplandecente do motivo que se vai insinuando no ostinato – e o ostinato tem aqui, claramente, a função de manter o movimento e permitir, assim, a metamorfose que se quer infinita – acontecem coisas. Como se fôssemos num barco que mete água e, ininterruptamente, tivéssemos que vazá-la (a imagem é ainda de Gustafsson). Estas coisas, que provocam afinal o desacerto da «nota certa», o seu fora do lugar previsível, a sua morada insuspeita, não são despicientes: são a própria essência do esplendor. Não como anúncio, mas como preliminar: o clímax (e o concerto tem vários) é-o graças à sábia arte da atenção. Aí se gera o sentido, aí se tornam indistintas a dor e o prazer de viver.

Porque o entretanto é que vale e, nele, se possível, algum conforto; porém, como adverte Gustafsson, «não o conforto transitório e superficial, mas aquele conforto profundo que nos diz que nada vai melhorar, mas que temos de nos sentir reconfortados mesmo assim». Sintomaticamente, Jarret nunca se limita a improvisar: procura também beleza. E é essa mescla de dor e de uma beleza poderosa o que nos proporciona o seu Concerto. Sentimos, escutando-o, que é bom estar-se vivo para termos o privilégio de transformarmos a dor de viver em alegria de viver.

Claro que o Concerto acaba. Mas algo me diz que «saber acabar» tem que ver com a vivência aguda do durante. Talvez por isso ele, o Concerto, acabe em forma de eco. Antes do silêncio. Antes da ovação emocionada e grata.

Afinal a morte vence, isso é certo
– diz-nos Remco Capert –
mas a morte é apenas silêncio na sala
depois de ressoar a última palavra.
A morte é emoção.

6.5.09

Vasco Granja (1925-2009)


Não obstante todas as piadas que fizemos a propósito do programa deste homem, nunca saberemos o quanto lhe devemos em termos da formação da nossa sensibilidade estética. Era a diferença, era a surpresa de programa para programa, era o reconhecimento da animação como cinema... e nunca isso nos impediu de esperarmos todas as semanas pelo programa, desejosamente.

Obrigado, Vasco Granja!

14.4.09

A ideia de tempo

a Pedro Correia

Talvez não baste a memória e a capacidade de previsão. Doutra forma, também outros animais conheceriam o tempo, e supõe-se que não o conheçam. Talvez o tempo nasça de uma surpresa: «ainda estou aqui!», terá exclamado o animal, quando o descobriu. E este «quando» seria uma das decorrências desse momento matricial, a partir do qual passou a haver «ponto de partida», «momentos», «ocorrências em sequência», «passagens de um estado a outro». Se ainda («ainda»: aqui está outra decorrência) interessam as definições, dir-se-ia que o tempo é, pois, «a consciência da duração». Ora, a consciência, ela mesma, é uma pausa, um contratempo. «Espera aí», terá pensado o animal, tropeçando no passo. Não há tempo (consciência da duração) sem paragem. Enquanto se vai na corrente, não se tem consciência. A «corrente de consciência» é «estar-aí», no que se vê e sente, é atenção, presente eterno, ou presença intemporal, porque mergulhada no que está sucedendo. O tempo só existe para quem fugiu para a margem e viu que os corpos deslizavam. Porém, reparou o marginal, esse «deslize» não eclipsava o corpo, ele mantinha-se à tona, ainda que ligeiramente diferente. Essa diferença ligeira do corpo, do estado do corpo, corpo-que-está-ainda-mas-de-forma-diferente, é o grande enigma do tempo e a única razão porque sofremos com a consciência da duração. Não fosse este enigma, não teríamos alguma vez estabelecido metas longínquas ou desejado para além da saciedade. Daí o tempo ser o deus que come os filhos, daí o tempo ser um dos mil nomes de deus. Essa surpresa original, cristalizada no «ainda!», pôs pela primeira vez o animal «fora de si». «O animal fora de si» é outro nome para «transcendência», relação de si para consigo mesmo.

Eis uma narrativa cartesiana do tempo sem Descartes, narcísica. Com efeito, o homem ao espelho é uma pobre visão do homem. Porque esse animal amava, ou seja, via «para fora». Conhecera a intensidade da paixão, esse presente doce que temeu perder. E, no temor de perder o amor e a eternidade do amor, foi assaltado pelo tempo. O tempo seria, então, talvez, «a consciência da perda», a consciência de que «aquele que se ama já não é o que era há instantes». O objecto do medo consumou-se: o assaltante matou. Quando o animal reparou que o corpo da amada jamais se animaria, chorou como nenhum animal o fizera antes. Porque os animais, os outros, tinham consciência da morte, claro, mas não desejavam para lá dela. «A vida é assim; matar e ser morto, comer ou ser comido», pensavam. Mas este animal, para além da luta pela sobrevivência, cometara o pecado original de se afeiçoar danadamente, distinguindo aquela fêmea (e ela a ele) das outras fêmeas (e ela a ele dos outros machos), tornando-se assim homem e mulher. E, desde então, o tempo passou a ser o grande inimigo dos dois, gémeo da morte, com ela se confundindo sempre. O tempo é a grande falha, o «não» que aparta os amantes, a ausência, ou, no menos mau dos casos, a transmigração do corpo para um outro corpo menos alegre, uma perda da energia vital gerada pelo amor e pelo enlace. E é por esta razão que os amantes acreditam na vida eterna, ou seja, amam apesar da morte. E é também por esta razão que os crentes elegeram o amor como o deus que vence o tempo.

13.4.09

A ideia de penumbra

a Helena Valentim

Alguém me diga, sem saudades do sol, quantas sombras tem uma árvore. Quero dizer: sem ir à procura da origem da sombra. Nada, portanto, de aves de Minerva meditando na luz indirecta que a lua espelha (reflectindo) ou examinando cuidadosamente as constelações, a relação fria da luz dos astros (considerando)! A hora das considerações da coruja, senhor Hegel, é uma hora ressentida ou, se quiser, requentada. Mas não se enxotem apenas as sisudas corujas; fora também com as altivas águias: xô penugentas mais a vossa competência na fixação do sol! Que me pode dizer a dúvida enquanto antecâmera da luz solar, senhor Descartes, ou as suas ideias «claras e distintas», já sem sombra de dúvida? Que respostas me podem dar o seu credo quia absurdum est, senhor Tertuliano, ou o seu credo ut intelligam, senhor Anselmo, ou o seu como se, senhor Vaihinger? Uns porque precisam de evidências e provas, outros porque, sabendo que elas não passam de ficções necessárias e antropomórficas, apostam pascaliana e pragmaticamente naquilo que torne compreensível o mundo. Sim, quem duvida que, acreditando no Paraíso, se vive de certo modo (o modo possível, feito de esperança) no paraíso; quem duvida que viverá sempre nele (sempre que se acredite), quer ele exista quer não. E que importa se o Paraíso existe, se para o efeito este paraíso serve? Atendendo ao número daqueles que vivem apesar dos infernos interiores suspensos sobre a entropia exterior, é bem de acreditar com Borges que «não passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso». E insisto no «instante»…

Mas a minha súplica era dirigida a quem pudesse saciar a pergunta: «quantas sombras tem uma árvore?». Eis mais dois que nunca poderiam corresponder ao apelo e que, contudo, me põem a caminho da árvore. Um é Agostinho de Hipona, o criador do «pecado original», o outro é Tomás de Aquino, que desenvolveu a ideia magnífica de «limbo». É preciso ter em conta que, se não é possível ir além da fé (apenas porque ela é o impulso que põe o pé em movimento), nada nos impede de ir além da superstição e, o que é melhor, além da verdade. Ora, de Agostinho não se deve dizer que foi inteiramente original quando firmou a patente do «pecado original». Ao afirmá-lo, estava dizendo que não há passo na vida sem mancha, ou seja, que a parte inferior do pé é gémea siamesa da sombra, ainda antes de beijar a terra no passo ou na morte. Que o pé seja uma obstrução à luz do sol é uma inevitabilidade concedida aos vivos… Daí a dizer que não havia passo que não fosse em falso, descompasso errante, tropeço (pecatto), foi um passo… de consequências históricas imprevisíveis (que, não obstante, hoje conhecemos bastante bem). Tomás, na sequência deste andamento – um pouco para acertar o passo, como o faria o baptismo, ou para atenuar a intransigência do pontapé de um deus impiedoso e injusto –, veio em socorro dos inocentes que morressem sem a purificação do baptismo, conferindo-lhes a dignidade do limbo, estado daqueles que, ficando na orla da desesperança e da bem-aventurança eterna, vivem numa amenidade da qual Deus está ausente, mas não tanto que os prive da alegria de viverem. E isto é, nas palavras de Agamben, «simplesmente a vida humana».


É um resgate da ideia de «limbo». Porém, esta nasceu, não o esqueçamos, da de «pecado original». Sob pena deste se tornar um pecado final, irremediável, por muito tenebrosa que tenha sido no passado esta ideia ou se nos apresente ridícula hoje, ignore-se ainda ou se leve a sério, merece constituir-se como «lição das trevas» – sejamos apóstolos estremunhados com os acontecimentos subsequentes à noite no Horto das Oliveiras, sejamos sinistros e humaníssimos Gesualdos da Venosa tentando conciliar musicalmente as dissonâncias da alma. Assim: por que é que ideias desta estirpe surgem na cabeça de alguns homens? Qual o significado, não delas, mas da sua aparição? À luz da verdade, é fácil considerá-las falsas – mas como negar a sua aparição? E não são umas aparições quaisquer: evanescentes, a princípio, os séculos podem vir a dar-lhes a solidez do cutelo ou a voragem do fogo…

Contudo, estas novas perguntas não são senão uma deriva da pergunta inicial: «quantas sombras tem uma árvore?».

Uma resposta doutra natureza poderia vir do poema Anabase de Saint-John Perse, poema que tem início com uma Canção, cujo «enredo» decorre «sob a maior das árvores do ano», uma árvore de «folhas de bronze», e termina com outra Canção «sob a árvore coberta de rolas», «uma velha árvore», «árvore que arrulha». Não temos razões exegéticas para não aceitar que se trata da mesma árvore, ainda que sejam diferentes as horas e as «peripécias» que acontecem sob a sua copa. Na primeira canção, não se especifica a hora, mas as «folhas de bronze» indicam-nos que é dia e que dele se conhecem vários momentos: aquele em que nasce um potro (talvez o momento da chegada do Estrangeiro), aquele em que o Estrangeiro põe bagas amargas nas mãos dos nativos, aquele em que este relata o «ânimo» de outras províncias, aquele em que se dá um encontro amoroso. Na segunda e última canção, há um cavaleiro solitário que, no dealbar da aurora, larga um assobio e medita nas palavras do poeta (ou será ele próprio o poeta?). A resposta do poema poderia ser, então: «a árvore tem tantas sombras quantas as folhas»; ou: «tantas quantas as vidas que se abrigam na penumbra: os vivos são cada uma das sombras da árvore»; ou ainda: «a sombra da árvore é omnipresente, mesmo quando a sombra da noite a engole». (Outra seria a resposta, por exemplo, de um editor de imagem que objectivamente diria que a árvore tem tantas sombras quantas as dos frames em que a sombra surge anexada à árvore – ainda que, através da montagem cinematográfica, ele não pretenda senão criar espaços penúmbricos, lugares habitáveis pelo olhar.)


Os passos errantes derramam, verificou Agostinho, sombra. Mas a sombra é da terra e se há coisa que caracteriza o homem é que, embora nascido da terra, ele anda com a cabeça espetada no céu. Por causa disso, e dos olhos, ele ama o sol que não pode ver – ou Deus. E põe-se a adivinhar, como o cego Tirésias, ou, mediante o que a luz crua do sol lhe mostra, cega voluntariamente, como Édipo. Acontece que, além de olhos, o homem tem pés. E que entre a planta do pé e a terra há penumbra (não sombra). Porque caminhamos, então? Esta pergunta equivale a dizer: «por que perguntamos?», ou mais profundamente: «por que damos respostas?». A resposta parece simples para os pés: porque estamos ao sol e procuramos a penumbra dos afectos; porque a penumbra, mais que um lugar habitável, é o lugar dos afectos.

Que «vêem» os pés que caminham em direcção da árvore? Que a penumbra abaixo da sola ou do coturno se mistura com a da árvore. Que a penumbra é fresca e agradável. Que a dureza e a pureza minerais do pensamento diurno se diluem na luz crepuscular da antenoite e na luz incerta da antemanhã. Nessas ocasiões de graça humana, límbicas, o pensamento vacila, hesita, vislumbra apenas, larga a mão da verdade, encontra correspondência na penumbra, sente. É então que se torna pensamento de bondade, pensamento propício ao acolhimento. De quê? Do que acontece sob a árvore da vida. Árvore da vida que pode ser o carvalho que visitamos com frequência, à sombra do qual se abrigam corujas, águias e pensadores convertidos em amantes – que sussurram: «não te esclareço, amo a sombra indefectível, aberta e inexpugnável que há em ti… em nós».