a Helena ValentimAlguém me diga, sem saudades do sol, quantas sombras tem uma árvore. Quero dizer: sem ir à procura da origem da sombra. Nada, portanto, de aves de Minerva meditando na luz indirecta que a lua espelha (reflectindo) ou examinando cuidadosamente as constelações, a relação fria da luz dos astros (considerando)! A hora das considerações da coruja, senhor Hegel, é uma hora ressentida ou, se quiser, requentada. Mas não se enxotem apenas as sisudas corujas; fora também com as altivas águias: xô penugentas mais a vossa competência na fixação do sol! Que me pode dizer a dúvida enquanto antecâmera da luz solar, senhor Descartes, ou as suas ideias «claras e distintas», já
sem sombra de dúvida? Que respostas me podem dar o seu
credo quia absurdum est, senhor Tertuliano, ou o seu
credo ut intelligam, senhor Anselmo, ou o seu
como se, senhor Vaihinger? Uns porque precisam de evidências e provas, outros porque, sabendo que elas não passam de ficções necessárias e antropomórficas, apostam pascaliana e pragmaticamente naquilo que torne compreensível o mundo. Sim, quem duvida que, acreditando no Paraíso,
já se vive de certo modo (o modo possível, feito de esperança) no paraíso; quem duvida que viverá
sempre nele (sempre que se acredite), quer ele exista quer não. E que importa se o Paraíso existe, se para o efeito
este paraíso serve? Atendendo ao número daqueles que vivem apesar dos infernos interiores suspensos sobre a entropia exterior, é bem de acreditar com Borges que «não passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso». E insisto no «instante»…
Mas a minha súplica era dirigida a quem pudesse saciar a pergunta: «quantas sombras tem uma árvore?». Eis mais dois que nunca poderiam corresponder ao apelo e que, contudo, me põem a caminho da árvore. Um é Agostinho de Hipona, o criador do «pecado original», o outro é Tomás de Aquino, que desenvolveu a ideia magnífica de «limbo». É preciso ter em conta que, se não é possível ir além da fé (apenas porque ela é o impulso que põe o pé em movimento), nada nos impede de ir além da superstição e, o que é melhor, além da verdade. Ora, de Agostinho não se deve dizer que foi inteiramente original quando firmou a patente do «pecado original». Ao afirmá-lo, estava dizendo que não há passo na vida sem mancha, ou seja, que a parte inferior do pé é gémea siamesa da sombra, ainda antes de beijar a terra no passo ou na morte. Que o pé seja uma obstrução à luz do sol é uma inevitabilidade concedida aos vivos… Daí a dizer que não havia passo que não fosse
em falso, descompasso errante, tropeço (
pecatto), foi um passo… de consequências históricas imprevisíveis (que, não obstante, hoje conhecemos bastante bem). Tomás, na sequência deste andamento – um pouco para acertar o passo, como o faria o baptismo, ou para atenuar a intransigência do pontapé de um deus impiedoso e injusto –, veio em socorro dos inocentes que morressem sem a purificação do baptismo, conferindo-lhes a dignidade do limbo, estado daqueles que, ficando na orla da desesperança e da bem-aventurança eterna, vivem numa amenidade da qual Deus está ausente, mas não tanto que os prive da alegria de viverem. E isto é, nas palavras de Agamben, «simplesmente a vida humana».

É um resgate da ideia de «limbo». Porém, esta nasceu, não o esqueçamos, da de «pecado original». Sob pena deste se tornar um
pecado final, irremediável, por muito tenebrosa que tenha sido no passado esta ideia ou se nos apresente ridícula hoje, ignore-se ainda ou se leve a sério, merece constituir-se como «lição das trevas» – sejamos apóstolos estremunhados com os acontecimentos subsequentes à noite no Horto das Oliveiras, sejamos sinistros e humaníssimos Gesualdos da Venosa tentando conciliar musicalmente as dissonâncias da alma. Assim: por que é que ideias desta estirpe surgem na cabeça de alguns homens? Qual o significado, não delas, mas da sua aparição? À luz da verdade, é fácil considerá-las falsas – mas como negar a sua aparição? E não são umas aparições quaisquer: evanescentes, a princípio, os séculos podem vir a dar-lhes a solidez do cutelo ou a voragem do fogo…
Contudo, estas novas perguntas não são senão uma deriva da pergunta inicial: «quantas sombras tem uma árvore?».
Uma resposta doutra natureza poderia vir do poema Anabase de Saint-John Perse, poema que tem início com uma
Canção, cujo «enredo» decorre «sob a maior das árvores do ano», uma árvore de «folhas de bronze», e termina com outra
Canção «sob a árvore coberta de rolas», «uma velha árvore», «árvore que arrulha». Não temos razões exegéticas para não aceitar que se trata da mesma árvore, ainda que sejam diferentes as horas e as «peripécias» que acontecem sob a sua copa. Na primeira canção, não se especifica a hora, mas as «folhas de bronze» indicam-nos que é dia e que dele se conhecem vários momentos: aquele em que nasce um potro (talvez o momento da chegada do Estrangeiro), aquele em que o Estrangeiro põe bagas amargas nas mãos dos nativos, aquele em que este relata o «ânimo» de outras províncias, aquele em que se dá um encontro amoroso. Na segunda e última canção, há um cavaleiro solitário que, no dealbar da aurora, larga um assobio e medita nas palavras do poeta (ou será ele próprio o poeta?). A resposta do poema poderia ser, então: «a árvore tem tantas sombras quantas as folhas»; ou: «tantas quantas as vidas que se abrigam na penumbra: os vivos são cada uma das sombras da árvore»; ou ainda: «a sombra da árvore é omnipresente, mesmo quando a sombra da noite a engole». (Outra seria a resposta, por exemplo, de um editor de imagem que objectivamente diria que a árvore tem tantas sombras quantas as dos
frames em que a sombra surge anexada à árvore – ainda que, através da montagem cinematográfica, ele não pretenda senão criar
espaços penúmbricos, lugares habitáveis pelo olhar.)

Os passos errantes derramam, verificou Agostinho, sombra. Mas a sombra é da terra e se há coisa que caracteriza o homem é que, embora nascido da terra, ele anda com a cabeça espetada no céu. Por causa disso, e dos olhos, ele ama o sol que não pode ver – ou Deus. E põe-se a adivinhar, como o cego Tirésias, ou, mediante o que a luz crua do sol lhe mostra, cega voluntariamente, como Édipo. Acontece que, além de olhos, o homem tem pés. E que entre a planta do pé e a terra há penumbra (não sombra). Porque caminhamos, então? Esta pergunta equivale a dizer: «por que perguntamos?», ou mais profundamente: «por que damos respostas?». A resposta parece simples para os pés: porque estamos ao sol e procuramos a penumbra dos afectos; porque a penumbra, mais que um lugar habitável, é
o lugar dos afectos.
Que «vêem» os pés que caminham em direcção da árvore? Que a penumbra abaixo da sola ou do coturno se mistura com a da árvore. Que a penumbra é fresca e agradável. Que a dureza e a pureza minerais do pensamento diurno se diluem na luz crepuscular da antenoite e na luz incerta da antemanhã. Nessas ocasiões de graça humana, límbicas, o pensamento vacila, hesita, vislumbra apenas, larga a mão da verdade, encontra correspondência na penumbra, sente. É então que se torna pensamento de bondade, pensamento propício ao acolhimento. De quê? Do que acontece sob a árvore da vida. Árvore da vida que pode ser o carvalho que visitamos com frequência, à sombra do qual se abrigam corujas, águias e pensadores convertidos em amantes – que sussurram: «não te esclareço, amo a sombra indefectível, aberta e inexpugnável que há em ti… em nós».